11.8.17

em modo férias ♥

O blogue entra hoje em férias por duas semanas e meia. Dia 30 deste mês estarei de volta com o post da saudade para o desafio palavras [quase] perfeitas. Não podia fechar as férias com um post mais adequado do que este.

Não será totalmente verdade que estarei realmente de férias este tempo todo, na verdade, férias mesmo será só uma semana e daqui a uma semana. Porém quero acalmar e dedicar-me essencialmente às minhas filhotas e ao trabalho da [im]perfect que preciso deixar pronto antes de ir de férias. Vou ter saudades deste meu ninho de coisas boas onde pouso as minhas memórias e vos conto as minhas aventuras mas é importante parar, distanciar-me para voltar mais revigorada e com a clareza necessária para continuar mais empenhada que nunca.

Mas não se livram totalmente de mim, o instagram não entra de férias. Lá vou deixando pequenos recortes dos momentos mais [im]perfeitos da minha vida, vão me acompanhando por lá com o mesmo carinho que me têm dedicado aqui. Obrigada e até breve! ♥

9.8.17

Querida L.

Há dias que questiono tudo na tentativa vã de prever o teu futuro. Pergunto-me se o ensino inglês é o adequado para ti? Se este tipo de ensino de competição te ajudará a ser criança.
A sensação que tenho é que te dedicas apenas ao que queres com o intuito de ganhar e não com o objetivo no prazer que isso te possa trazer. Estudar deve ser algo intuitivo, prazeroso e desafiante mas não um jogo de vencedores e vencidos, como esta selva em que vivemos. Talvez te estejam a preparar para a realidade do mundo mas se por um lado te querem uma vencedora, uma competidora, por outro lado querem igualmente fomentar a tua imaginação e opinião crítiva. Se virmos isto numa perspetiva adulta encontro todas as vantagens do mundo em seres uma líder cheia de imaginação e sentido critico mas se me coloco no teu lugar percebo no quanto confusa pode estar a tua cabeça, a tua identidade, e o quanto frustrante se pode tornar tanta exigência e necessidade de ser a melhor em todas as áreas da vida.

Na semana passada inscrevi-te no desafio de leitura a decorrer entre bibliotecas e escolas. Enchem-vos de tarefas para fazerem nas férias quando as férias já têm a sua própria forma de passar o tempo: aliviar o stress, fugir à rotina, brincar de manhã à noite, passar tempo com a família, ser apenas criança. Porquê esta necessidade de "obrigar" a ler, a construir frases, a somar, a desempenhar tarefas e a robotizar as crianças numa direção castradora, quando em cada brincadeira criada com somas e multiplicações intuitivas, com estórias imaginadas, letras soletradas e palavras inventadas se aprende tão mais?

Queres ganhar a medalha da leitura sem teres o chato trabalho de juntar letras na lenta leitura que te desespera. Nada se consegue sem trabalho, sem esforço e sem dedicação e é para mim, minha querida filha, o fundamento deste desafio. Não irei entregar livros que fingiste ler até perfazeres a quota de livros que te oferecerá prémios e medalhas, não te ensinarei que a mentir e a aldrabar se consegue chegar onde se quer, não contribuirei para uma falsa educação porque acima de qualquer desafio, leitura ou tabuada, existe a educação dos valores essenciais que nos distingue como pessoas, e desses não abro mão.

Se eu te conseguisse fazer entender a essência de um livro, o quanto se pode viajar entre palavras e a quantidade de prémios que podemos colecionar ao fomentarmos a curiosidade através da leitura. Se tu entendesses que esta é a pior fase mas que quanto mais praticares mais depressa descobrirás os sons por trás das letras...
Minha querida L. como gostaria que não te perdesses pelos caminhos tortuosos da vida. A inteligência não está no comprimento do cabelo cortado à Rapunzel e que não a impediu de continuar a ser curiosa e intuitiva. Nem no sapato de cristal que depois de quebrado não azedou a doçura da Cinderela. Não importa o castelo onde se viva pois a Bela apaixonou-se pela biblioteca de um Monstro de qualquer maneira. Não é uma medalha que te dá virtude e sim a tua atitude. Não deixes de ser tu para ser ninguém pois ninguém é melhor que tu na tua essência. Usa a curiosidade que te caracteriza para ganhar as medalhas e não te deixes julgar pelas que brilham sem mérito e esforço.

Não é por não te fazer a vida fácil que te amo menos e sei que um dia me entenderás e concordarás comigo.

A tua mãe ♥

7.8.17

monday mood


Ela quer uma coisa que teimas em não dar. Ela puxa-te e dificulta-te o caminho e tu levantas-te e vais na mesma direção, a oposta da vida. Mentalizaste que a decisão foi tua e essa é a única estrada a seguir. Manténs a tua posição firme, tentas convencer-te de que é o melhor para os dois, para ti e para a vida. Gastas energias num sentido que ela ignora, sabe que não será o teu, aquele que te cabe, que te encherá de alegrias mas que o medo te cega. Faz-te parar, faz-te refletir, mostra-te que não adianta lutares por algo mais fácil mas cheio de imperfeições. Encoraja-te a desistires do medo ou pelo menos a tentar olhar através dele para que entendas o que estás a perder.
Às vezes basta um passo para entrarem em sintonia. Às vezes basta uma desistência acompanhada de uma insistência para o lado oposto. Às vezes basta questionares-te porque todos os atos têm sido em vão numa tentativa de te empurrar para algo que duvidas, que é arriscado, que te angustia mas que te gera empolgação. A vida sabe, sempre soube, sempre saberá... só precisas ficar em sintonia com ela.

3.8.17

a escolha de não ser mãe [imprefeições alheias]

Hoje venho-vos falar sobre um tema que causa polémica na sociedade, que produz ideias contrastantes e gera muitas vezes opiniões extremadas de ambas as partes que vivem ou não a maternidade.

Vem de longe, desde que o homem evoluiu para uma espécie inteligente e reprodutora, a tão generalizada e enraizada ideia de que a mulher evoluiu para ser mãe e fortalecer a espécie com o contributo da doação de vidas; e é óbvio que sendo apenas a mulher a conceber vida para que a espécie humana continue a sua reprodução e evolução seria desastroso para a nossa sobrevivência se todas as mulheres vivas se negassem a engravidar e gerar homens e mulheres.
Mas a questão que me leva hoje a escrever sobre a maternidade é sobre crença, empatia e até mesmo altruísmo por parte das mulheres que decidem de plena consciência não serem mães, quer biológicas quer adoptivas, tendo de antemão uma legião de vozes contra tal decisão. A maioria de vocês que me lerão serão provavelmente mães, mulheres que escolheram ser mãe por desejo e por convicção, por vontade de deixar no mundo o vosso legado e sentirem-se preenchidas e nutridas por tal "profissão" eterna; e por isso é de extrema importância que entendam estas minhas palavras como parte de uma opinião pessoal sem qualquer tentativa de julgar ou reclamar qual das opções está certa ou errada.

É meu intuito apenas que haja compreensão mútua entre mulheres que são mães e mulheres que não são mães, uma difícil tarefa nas sociedades que se têm degladiado numa demanda em criar uma espécie de céu e inferno da "bíblia maternal"; como se a perfeição estivesse do lado das geradoras de vida e a imperfeição naquelas que "recusam" o dom de dar à luz uma criança. A mim faz-me alguma impressão quando se diz a uma mulher que não quer ser mãe que esta morrerá incompleta, que está a renegar a maravilha da maternidade, que não será esposa dedicada, e outros aforismos do género (muitos deles embebidos em crenças religiosas que deturpam a imagem feminina).
Eu confesso que não sou mãe, nunca senti aquele dito desejo maternal, que não me embeveço na presença de bebés, que estou longe do esterótipo de esposa dedicada e mãe de filhos atenta e extremosa; não entendam como não gostando de crianças, gosto da gargalhada pura de um bebé e divirto-me com os sorrisos de crianças e sua ingenuidade mas não numa vertente permanente 24 sobre 24 horas em que o "papel" de mãe recaia sobre mim.

Acredito que uma mulher não toma a decisão de não progenitorizar de ânimo leve, e não falo aqui dos casos das que não podem ser mães por motivos biológicos, pois é também esta uma decisão para a vida que terá consequências igualmente "eternas"; e acredito que quem decide não ser mãe deve ser respeitada pelas suas iguais sem que constantemente passe por escrutínios de familiares, amigos, vizinhos, que se acham no direito de tecer duras críticas à sua escolha.
Por diversas vezes assisti a conversas em que mulheres reivindicavam a maternidade como algo sagrado, como uma escolha que deveria ser inquestionável e uma espécie de burka a ter que ser usada por todo o género feminino; senti olhares de reprovação ao relatar a minha escolha e fui confrontada com a ideia de que estarei a cometer um grave erro, até mesmo a ser ingrata com o meu útero que foi "criado" para gerar vida, quase como se roubasse esse direito às mulheres que não podem ser mães.
Mas sejamos honestas, deixemos questões de cariz religioso no lugar devido, façamos uma análise puramente científica e biológica: seria possível a cada mulher que decide não gerar uma criança dar a cura para cada uma que não o pode fazer por deficiência biológica? A resposta todas sabemos é não, se eu opto por não ser mãe isso não faz com que por artes mágicas uma mulher algures de repente o possa ser, logo eu não devo ser responsabilizada por estar a "deitar fora" o meu dom de poder gerar vida.

Como vos disse no início deste meu pequeno contributo, o tema da maternidade é sensível e gera há séculos discórdia entre mulheres e é essa dicotomia que me gera alguma incompreensão na união entre o sexo feminino; porque seriamos mais fortes se nos entendêssemos mutuamente, se aceitássemos as escolhas de cada uma sem questionar os motivos e apontar dedos acusatórios, se compreendessemos que até a maternidade deve ser uma escolha pessoal sem influência de outros.
Decidir não ser mãe deve ser tão válido como desejar sê-lo e essa escolha não deve tornar-se num pêndulo crucificatório sobre a cabeça de quem por motivos pessoais ou de outra génese a faz. Querer tornar uma mulher que opta por não gerar vida e também não adopta numa espécie de pária social é inocrrecto, é indevido e é muitas vezs injusto, ninguém sabe os porquês de tal decisão e até mesmo as circunstâncias de vida que levam uma mulher optar por não ser mãe biológica ou adoptiva.

A minha decisão por exemplo teve vários factores, desde questões que se prendem com pouca certeza de vir a ser uma boa mãe (com capacidade para educar, alimentar, compreender, escutar, criar e afins) até factores temporais e sentimentais. Porque por vezes há mulheres que até pretendem inicialmente ser mãe mas vão adiando a gravidez por motivos profissionais, familiares, emocionais, etc, e quando se dão conta a idade já não acolhe tal ideia e a vontade acaba por diluir-se; e também há as que demoram a encontrar um parceiro com quem sintam realmente que ser mãe faz sentido, que não querem fazer por pressão ou acabar com um bebé de pai ausente e nada responsável e por isso acabam por centrar a felicidade noutros aspectos.
E depois há o meu caso, que será possivelmente o de tantas outras mulheres, em que a decisão se prendeu maioritariamente com um sentido altruísta de não dar vida a uma criança apenas com o intuito de "agarrar" um homem, de dar um neto aos meus pais (de filha única, sem hipótese de serem avós de outro progenitor) para os ver mais felizes ou de fazer aquilo que é esperado a uma jovem em idade casadoira e fértil.
E quando digo altruísta é porque entendo convictamente que ser mãe não é dar à luz e é o oposto de querer ter um filho, aliás li há pouco um artigo muito bem escrito de um psicólogo que punha o dedo na ferida questionando as mulheres o seguinte: - querem ser mães ou terem um filho? - e a diferença, creiam, é abismal porque qualquer mulher está apta a ter um filho (salvo as tais excepções impeditivas do foro físico) mas nem toda o está a ser mãe.

Eu entendi que poderia ter um filho mas não ser mãe e tomar a decisão difícil de não ser é para mim altruísta no sentido de preservar uma criança que nasceria e não seria porventura envolvida no acto gigante da maternidade tal como deveria ser; poupar um ser humano a crescer no seio de dúvidas, de incertezas, de incapacidades alheias é deixar o mundo um pouco menos cheio de tantos homens e mulheres nascidos e criados por mulheres em permanente questionamento se estes deveriam ou não ter nascido e se elas não seriam mais felizes sem eles.

Termino dizendo que a única coisa de que tenho a certeza é que se fosse mãe amaria incondicionalmente a minha filha (e digo filha porque sempre acreditei que se viesse afinal a ser mãe teria uma filha saída do meu ventre), mas ser mãe não é também apenas amar o ser que geramos pese esse ser o mais importante sentimento no seio da maternidade.

Ás mães que me lerem, o meu apoio pela decisão de o serem; ás não mães, o meu mesmo apoio pela decisão de não o terem sido.